Artigo - Silêncio, ouro e prata

18.3.18
Por Edson Vidigal

Não dizem que o silencio é de ouro? Pois se com o silencio há ouro, então vamos silenciar um pouco, só um pouco, até porque ouro demais nem é preciso.

Silenciando, ganhamos espaços para incursões mais proveitosas pelo abstrato. E quem foi que disse que o abstrato não é real, que só faz sentido na imaginação? Discordo.

Tudo principia por uma ideia que desponta. Sendo você livre, absolutamente livre, para pensar, em muitas situações só para pensar, tudo pode acabar bem ou mal dependendo da ação inspirada no seu pensar.

Talvez seja um pouco mais disso, de pensar, que estejamos precisando. De investir esse ouro enorme arrecadado do silencio num maior exercício do pensar.

Ah, mas quem resiste?

O ouro é inoxidável como raras amizades, à prova de maresias. Uma firme amizade não enferruja.

Assemelha-se ao amor da Epistola de Paulo – paciente, não arde em invejas, não se ufana sobre outro, não se porta inconvenientemente, não se exaspera, não está sempre em busca de seus próprios interesses, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com verdade.

A amizade verdadeira é que nem o amor de verdade, jamais acaba.

Um grama de ouro pode ser laminado, quer dizer, espichado, por até um metro quadrado.

Para você ter uma ideia, o ouro é tão raro que para obtê-lo em um quilo no oceano são necessários oito bilhões e trezentos milhões de litros de agua. Em terra, escarafuncham-se duzentas toneladas.

Quando se diz que uma amizade verdadeira vale mais que ouro em pó, e se para se encontrar ouro em terra ou no mar é tão difícil, imagine-se o garimpo onde se possa encontrar a verdadeira amizade.

Tudo ao que queremos atribuir incomensurável valor dizemos que vale ouro. Tem ouro preto, ouro verde, ouro branco, ouro velho e nunca mais vi ouro fino, uma boa cerveja que provei uma vez numa estrada em Minas.

Nos programas de auditório da Rádio Timbira, em São Luís, cantava uma moça que era chamada de a voz de ouro do rádio maranhense.

Há também o Ouro de Tolo do Raul Seixas, que eu cantei na festa dos juízes no Bar Brahma, quase entre a Ipiranga e a S. João. Não sou nenhum Luizinho bom de guitarra, mas quando tenho o Valtinho, bom de violão, por perto também solto a voz no salão. (Eu tenho uma porção de coisas para conquistar / e eu não posso ficar aí parado...).

Três coisas devem ser feitas por um bom juiz, ensinava Sócrates: - Ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente.

Ao que um chinês, acho que foi Confúcio, completou:

- Só quem entende a beleza do perdão pode julgar os seus semelhantes.

Alguém me disse que em Ribeirão Preto, sede do Migalhas, São Paulo, há uma rádio chamada Rádio Viola de Ouro, que só toca música caipira durante vinte e quatro horas. Não confundir música caipira de raiz com a música sertaneja. Exceção excepcionalíssima. Se na Rádio Viola de Ouro houver silencio, ainda assim, não haverá ouro.

O silencio é de ouro, certo? E a palavra é de prata?

(Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal)

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