BLOGS E ANONIMATO

28.12.13
                                                            (Edmilson Sanches)

Não tenho qualquer ilusão (talvez nem desejo) de que se acabe o anonimato na rede mundial de computadores. O que se argumenta aqui é acerca do anonimato em textos ofensivos, que margeiam a ilegalidade ou, mesmo, se tornam marginal, pelo cometimento de ilícitos tipificados penalmente, criminalmente. O anônimo fica ali, à espreita, destila inveja, ódio e acusações, xinga, faz e acontece, pinta e borda, enquanto a pessoa objeto das ofensas, inteiramente exposta, não tem como dialogar com sombras, se defender do que é escuro, escuso, e covarde...

É claro que toda pessoa que entra na rede mundial de computadores deixa rastro. Mesmo os anônimos. Recentemente a Justiça do Rio de Janeiro determinou que a empresa Oi (antiga Telemar) identificasse a origem de e-mails mentirosos e ofensivos, enviados desde 2007 contra um outro internauta.

Como toda pessoa que tem um endereço eletrônico precisou registrá-lo, o agressor e mentiroso teve descoberto os números de IP (“internet protocol”, protocolos de Internet, uma espécie de CPF ou identidade do internauta, anônimo ou não).

A Justiça não brincou: A desembargadora Sirley Abreu Biondi, relatora do processo, escreveu: "Não é cabível que mensagens agressivas, conturbadas, pornográficas, ofensivas não possam ser identificadas, como alegado pela ré, restando impune seus subscritores, sob o manto da impunidade esperada pela forma de atuação virtual".

Como se pode inferir, os travestidos internautas que têm muito prazer e nenhuma coragem em relação às agressões que destilam podem estar com os dias contados, se os agredidos se dispuserem a revelar-lhes a cara descarada.

Para reduzir o trânsito desses penetras, alguns jornalistas e outros blogueiros iniciaram não propriamente um movimento, posto que decisão pessoal, mas uma tomada de atitude que, sem mais nem menos, pode ampliar-se. Afinal, o bem também merece prosperar.

Do jornalista Marcos Franco, em 16 de setembro de 2009, veio a lembrança aos que lhe visitam na Internet: “Pra comentar aqui há que se ter coragem - Só para lembrar. Tenho recebido diversos comentários sem identificação. Não adianta, não serão postados. Aqui há espaço para todos os que assinam suas palavras. Aos que tentam se esconder e falta-lhes coragem, ficam condenados, aqui neste Entreatos, a terem suas opiniões lidas apenas por mim. // Apesar de a maioria ser de xingamentos, grosserias e achismos, alguns deles, é verdade, têm embasamento. Têm fundamento. Mas, aqui não serão publicados. // C’est fini.”

Do jornalista Walter Rodrigues (“in memoriam”), que estabeleceu há muito o critério de identificação (inclusive telefone) de seus internautas visitadores, reproduzo o comentário que fez quando lhe enviei o texto primeiro sobre o assunto: “Grande abraço, Edmilson. Não me surpreende que a sua inteligência repudie o comportamento dessa gente covarde que já o mestre Schopenhauer qualificava com os piores e mais justos adjetivos.”

Com o título “Eu não publico comentário de anônimo!”, em 26 de setembro de 2009, o blogueiro Holden Arruda escreveu: “Quem faz comentário em blog, aproveitando excelentes textos publicados -- no geral, matérias que falam de políticos e política --, e o Zé-mané se mantém no sigilo para denegrir ou defender alguém, com certeza ele é um babão safado (...). // Vamos levantar a bandeira de quem tem vergonha e não publicar comentários que não estejam assinados. // Quem não tem coragem de mostrar a cara, tem que ficar em casa assistindo novela das oito e não tentar fazer do nosso tempo tão precioso um sacrifício pra ter que dizer sempre: ‘Mostra a tua cara e assina o teu comentário, seu puxa-saco medroso duma figa!!!’ (...) Mostra tua cara, anônimo!!!”

No dia 30 de setembro de 2009, o professor e blogueiro Isnande Barros, sob o título “Anônimos” disse iniciar outubro com uma nova medida, inclusive criação de um “banco de comentaristas”. Escreveu ele: “Vou tomar uma medida chata com relação aos visitantes que querem comentar e não têm a devida coragem de responder pelo que dizem. O objetivo do blogue é discutir, trocar idéias sobre a cidade e sobre os comentários, mas isso deve ocorrer de forma civilizada. Atingir pessoas não nos leva a lugar algum, e atingir de forma covarde é muito cômodo. Eu recebo ligações de pessoas que se sentem ofendidas com alguns comentários que às vezes é assinado por um certo [!] José Carvalho, Cristina Silva... nomes inventados na hora pelos que preferem a sombra do anonimato. // Vou instituir um banco de comentaristas, que será composto por aqueles que sempre comentaram aqui e por aqueles que solicitarem por e-mail a inclusão do seu nome. Será permitido o uso de pseudônimos, desde que o interessado se cadastre com seu nome real, que será preservado. No mais, continuem mandando informações, eu apuro e publico. Que venha o mês de outubro de 2009.”

Não é muito, mas, assim como os três mosqueteiros, já são quatro -- isto aqui, em plagas maranhenses.
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O jornalista João Rodrigues, de “O Estado do Maranhão”, e blogueiro do Portal iMirante, é outro que diz não ao anonimato dos comentários ofensivos na Internet. Com ele são pelo menos cinco blogueiros que dão um basta à covardia de detratores mascarados: Walter Rodrigues, Marcos Franco, Isnande Barros, Holden Arruda e João Rodrigues. Em “Nota ao leitor” de 5 de outubro de 2009, João Rodrigues decide:

“A partir desta data [05/10/2009] o blog vai adotar medidas mais rígidas com relação aos comentários postados. É compreensível que o internauta comente concordando ou discordando de algum post [texto ou imagem colocado (“postado”)], mas isso deve ser feito com respeito, responsabilidade e acima de tudo sem agressão a quem quer que seja. // O que tenho percebido é que tem gente usando nomes falsos para fazer comentários ofensivos, mensagens estas que estão sendo deletadas. De nenhuma forma este blog aceitará esse tipo de manifestação. Quero ressaltar ainda que o blog possui recursos de rastreamento e se as mensagens agressivas continuarem vou adotar as medidas cabíveis.”

Bem-vindo a este clube de, por enquanto, poucos sócios...

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Repita-se: o que se trata aqui tem nada a ver com quem escreve coisas não-agressivas, não-ofensivas, não-mentirosas e não-criminosas, sob qualquer identificação, verdadeira ou não. Trata-se, apenas, daquilo que, como visto acima, a Justiça considera ofensivo, mentiroso, agressivo, lesivo ao patrimônio imaterial de um ser humano.

Vida longa à Internet, mesmo aos que a usam mal. Afinal, toda pessoa tem o direito de ir pro inferno em paz... (EDMILSON SANCHES – CI-RG 35783195-0 SSP-MA)

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