Caxiense constrói o próprio negócio a poucos metros do local de onde foi expulsa em SP

3.5.19

Doada pelo pai a uma família do Piauí, a nordestina foi escravizada na infância. Ela se casou na adolescência e, mesmo proibida pelo marido, colocava os três filhos pequenos em um carrinho de bebê e ia para as ruas vender doces.

Empresária constrói o próprio negócio a poucos metros do local onde foi expulsa em
Praia Grande, SP — Foto: Liliane Souza/G1 Santos
G1 - O chão de uma calçada foi o local encontrado por uma empresária de Praia Grande, no litoral de São Paulo, para vender os bolos que ela preparava. Maria Raimunda Silva, de 58 anos, permaneceu durante 10 anos comercializando doces sentada em uma calçada, até que inúmeras denúncias à prefeitura resultaram em sua expulsão do local. Hoje, ela tem sua própria loja, a poucos metros dali, conta com nove colaboradores, milhares de clientes e vende dezenas de bolos por dia.

Antes de alcançar o que ela hoje define como sucesso, a nordestina passou por inúmeros obstáculos. Natural de Caxias, no Maranhão, ela teve de se adaptar a uma nova realidade quando completou 11 anos. Sem condições de garantir suas necessidades básicas, seu pai a doou a uma família de Teresina, no Piauí. "Eu estava em um restaurante com o meu pai, pedindo restos para comer, quando uma moça perguntou: Ela é sua filha? Deixa ela ir comigo?", recorda. Ele autorizou e ela foi levada pela desconhecida.

Separada dos pais por pouco mais de 70 quilômetros, a jovem logo descobriu que não foi levada por bondade da família piauiense. "Eles levavam mocinhas e colocavam para trabalhar. Remuneravam com roupa, comida. Faziam a gente de escravo", recorda.

Aos 17 anos, sem muitas perspectivas, Maria não viu outra alternativa senão casar com um rapaz um pouco mais velho que ela. "Eu queria sair de onde estava", diz. No ano seguinte, os dois partiram rumo a São Paulo em busca de oportunidades. Um cortiço de um cômodo foi o que a ela e o então marido conseguiram alugar quando se mudaram para a capital.

Empresária conta com nove colaboradores, milhares de clientes e vende dezenas de
bolos por dia — Foto: Liliane Souza/G1 Santos
Devido à situação precária, eles decidiram tentar a sorte em outra cidade e, aos 19 anos, ela começou morar em Praia Grande. Aos 24 anos, com três filhos pequenos para criar, ela sequer imaginava que um dia seria independente e construiria seu próprio negócio.

Até então, quem arcava com as despesas da casa era o marido. "Mulher minha só trabalha depois de eu morrer", dizia ele. Mas as contas não fechavam e o casal mal tinha comida para oferecer às crianças. Mesmo proibida de trabalhar, ela decidiu enfrentar o marido e começou a vender doces e salgados. Tudo escondido, enquanto o marido trabalhava.

Os primeiros passos foram dados com a ajuda de sua madrinha, que lhe ensinou a preparar várias receitas e comprou os primeiros ingredientes que ela precisava para dar início ao que no futuro mudaria completamente sua vida.

"Meu marido chegava de noite e as crianças já estavam dormindo, todas queimadas de sol". Com os três filhos em um carrinho de bebê, ela andava pelas ruas para vender os quitutes. Até os professores das crianças se tornaram clientes. "Eu pedia para as pessoas não contarem", afirma.

Três meses depois, com um faturamento cada vez maior, ela resolveu revelar o segredo. No início, o marido não gostou da ideia. Com o tempo, ao ver o dinheiro que ela conseguia juntar, ele acabou concordando. "Eu dava todo o dinheiro na mão dele".

Maria, que hoje tem a própria loja, já chegou a vender doces em carrinho de praia
improvisado com uma geladeira velha e rodas de bicicleta — Foto: Liliane Souza/G1 Santos
Com uma geladeira velha e rodas de bicicleta, ela conseguiu improvisar um carrinho para vender comidas e bebidas na praia. Nesse tempo, o marido ficou desempregado e começou a trabalhar com ela. Com o dinheiro que conseguiram juntar, eles abriram um comércio no bairro Boqueirão. Mas o negócio não foi para frente. "A lanchonete não tinha muito cliente porque eles tinham cisma com o meu marido. Ele é uma pessoa ignorante".

Para driblar a situação, ela ia para a rua vender as mercadorias. Essa foi sua rotina durante anos até que, após guardar uma parte do dinheiro que recebia, Maria conseguiu financiar um apartamento em seu nome, sem que o marido soubesse. Ela se separou e deixou o comércio e todos os móveis da casa para ele. Ela estava disposta a recomeçar do zero – dessa vez, somente ela e os três filhos.

Com a clientela que conquistou ao longo dos anos, ela continuou vendendo doces e foi ficando cada vez mais conhecida pelos bolos que preparava. Graças à dona de uma loja de autopeças, Maria conseguiu se fixar na Rua Espírito Santo, também no bairro Boqueirão.

Sentada na beira da calçada, Maria levava vários pedaços de bolo dentro de uma caixa. "Eu servia os bolos em papel alumínio". Ela conta que os clientes formavam filas que dobravam a esquina. "Mas algumas pessoas ligavam na Vigilância Sanitária porque eu ficava no chão. Fiquei por uns 10 anos lá, até que os fiscais da prefeitura começaram a reclamar muito e a moça da loja pediu para eu arrumar outro lugar".

Persistente, ela conseguiu vender os doces em um restaurante próximo ao antigo local e também aceitava encomendas, que eram retiradas pelos clientes em seu próprio apartamento. Maria ficou por lá durante nove meses, quando viu em um sobrado à venda a oportunidade de ter o próprio negócio.

Maria Silva administra a loja com a ajuda das filhas Melissa Karen da Silva Paz e Linda
Ellen da Silva Paz — Foto: Liliane Souza/G1 Santos
Ela financiou o imóvel e, há quatro anos, vende bolos em sua própria loja. Para a empresária, que conta com a ajuda das filhas no comércio, todos os obstáculos serviram para fortalecê-la. "Eu sempre tive ambição de melhorar de vida, mas nunca pensei que fosse chegar tão longe. Eu agradeço até o que aconteceu de ruim. Tudo é para você crescer, lutar mais e ter mais coragem", finaliza.

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