A minha convivência com seu João

1.5.20

Por Chico Leitoa

Conheci seu João como todo mundo que vivia por aqui, desde o final da década de 60. Viemos da Zona rural de Timon e meus pais foram desenvolver atividades comerciais. Minha mãe, vender numa banca no mercado central e meu pai numa quitanda, num ponto comercial do Sr. Laurentino Machado, na Avenida Maranhão (à época de uma só pista) entre as ruas Lisandro Nogueira e Desembargador Freitas. No quarteirão seguinte, ou seja, entre as ruas Desembargador Freitas e Benjamim Constant, Rua João Cabral e Avenida Maranhão era o prédio da antiga fiação.

Começamos a ouvir falar que o prédio teria sido vendido para que fosse funcionar o Armazém Paraíba. As imagens ficaram em minha mente, da revitalização e a ocupação daquele prédio antigo e grandioso, onde, por décadas e até hoje veio a funciona a matriz e onde Seu João tinha seu principal Escritório. O tempo passou e nossa relação era apenas casual.

A partir de 1992, comecei a ganhar uma ‘certa’ popularidade, notadamente aumentada pela disputa desigual pela Prefeitura de Timon. Nesse mesmo ano, certa vez, eu caminhava na Rua do Sol, no centro de São Luis e seu Joāo caminhava em sentido contrário. Ao passar por ele o cumprimentei, mas ele de imediato não me reconheceu; nos afastamos de 5 a 10 metros e ele deu meia volta e me chamou. Voltei e ele foi logo me perguntando: Você vai ganhar aquela eleição de Timon sozinho? Falei com meio sorriso: não Seu João, é muita gente... Ele sorriu, trocamos mais algumas palavras, nos despedimos e fomos cada um para seu destino. Foi a primeira vez que falei pessoalmente com ele.

A partir dali, e durante quase 30 anos tivemos uma relação saudável alimentada por longas conversas em vários lugares, mas principalmente na matriz, muitas das vezes marcadas por mim, e algumas por ele, sempre através de dona Ivonete.

Homem antenado com o mundo, de uma curiosidade aguçada, de uma lucidez invejável além de uma humildade admirável. Sempre me enchia de perguntas, principalmente sobre a política do Maranhão e claro, a de Timon. Mas tratava também de assuntos variados e interessantes. Sempre com muito respeito mútuo.

O Prefeito Luciano tinha um projeto para implantação de um centro cultural a ser executado no bairro parque Piauí II. A escolha do terreno recaiu sobre uma área que pertencia a Seu João. Luciano então o procurou e foram juntos no local desejado e no outro proposto pra fazer uma permuta. Proposta aceita, o centro cultural começou a ser construído. Logo depois, em conversa com seu João, ele foi logo falando: seu filho é um rapaz muito centrado viu ? Gostei demais dele, confesso que ele é melhor que Você. Falei: isso muito me orgulha e fico feliz do Senhor ter tido essa impressão dele.

No decorrer da construção do Centro Cultural, a esposa do Seu João faleceu e num gesto de gratidão, o Prefeito Luciano, sancionou uma lei apresentada pelo Vereador Ivan do Saborear, que conferiu o nome Espaço Cultural Dona Socorro Claudino. Com a obra praticamente pronta, o convidei e fomos juntos até o local. Ficou muito contente ao percorrermos as instalações do teatro com capacidade para 400 pessoas sentadas e um anexo para atividades culturais variadas, tudo de um padrão adequado. Na volta entrou em nossa casa e ele fez uma visita a dona Beta, ele sabia da sua doença e sempre perguntava sobre seu estado de saúde.

A partir daí, em todos nossos encontros tratamos da inauguração do Centro Cultural. O Prefeito planeja fazer uma grande inauguração e Seu João pretendia participar ativamente do evento, inclusive trazendo familiares da Paraíba.

No final do ano, começamos a falar de data. Seu João perguntou se tava tudo pronto. Falei que a obra física sim, mas faltavam os móveis, equipamentos, iluminação e sonorização. De pronto, e antes de eu falar, ele perguntou, e a lei de incentivo à cultura? Falei: está em vigor. Ele foi enfático com relação à possibilidade do Grupo Claudino apoiar o projeto. A lei de incentivo à cultura permite que empresas dêem apoio a projetos aprovados pelo Governo Estadual e o valor seja deduzido no ICMS.

Numa prova de apreço, seu João quando da sua última viagem à Europa, trouxe dois chapéus e presenteou dona Beta. Um gesto característico das grandes amizades.

Nossa última e agradável conversa, durou mais de uma hora, demora sempre provocada por ele pois eu sempre abreviava o máximo, pois todos sabíamos das suas grandes ocupações. No ensejo desta conversa, seu João estava animado como sempre e trocamos algumas boas opiniões. Nos despedimos de pé, na presença de um sobrinho seu, que aliás testemunhou alguns outros desses diálogos. Ao sair, adentrou um grupo de jovens recém contratados que acho eu, iam receber as boas vindas. Mais um ponto positivo daquele Homem que deixou um exemplo de vida.

Seu João nos deixou seu grande legado, já retratado por muitos e de diversas formas. A mim, restou relatar nossa convivência e a nossa fraterna amizade.

Chico Leitoa é engenheiro, ex-deputado e ex-prefeito de Timon-MA

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