Menina Veneno

9.3.17
Por Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

Seguiam os depoimentos e o Ministro mais se assustava. Nunca ouvira alguém falar de tanto dinheiro em dólar ou em real assim como quem repete uma noticia gasta de tão contada tantas vezes a quem tivesse interesse.

A certa altura das investigações ficou-se sabendo que a moça instituíra um departamento em seu organograma destinado a cuidar unicamente das propinas destinadas a melar as mãos de agentes públicos, em especial parlamentares de qualquer nível federativo, ministros de estado, governadores e até juízes, embora neste último caso nada tenha até aqui se provado.

Assim, o Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, a empreiteira de incontáveis tentáculos disposta a estar presente em qualquer lugar do mundo onde houvesse alguma coisa a fazer e um dinheiro a ganhar, lidando com o barro humano sem dificuldades, foi acumulando influencias a ponto de no Brasil e alhures bancar eleições de prefeitos, governadores, deputados, senadores e até Presidentes da República como temos visto a partir das ultimas colaborações, as quais a nossa imprensa insiste em chamar de delações. Tudo através do voto popular. Democrático, não?

Pensando bem, num certo ponto de vista, esse autêntico polvo da construção civil e de outros empreendimentos e mais afazeres se necessários, passou por Rondônia atrás da Hidroelétrica Santo Antônio, em Porto Velho e por em S. Paulo expandindo a linha 2 do metrô, o corredor metropolitano de Campinas e os serviços de saneamento de Mairinque.

No Rio Grande do Sul, ganhou a dragagem e aprofundamento do canal da barra de acesso ao Porto do Rio Grande e prolongamento dos moldes do porto; a extensão da linha 1 da Trensurb na região metropolitana de Porto Alegre e a barragem do arroio Taquarembó.

No Ceará, onde se imaginava que não tinha disso não, mas teve, pataca também trincou quando se falou num trecho do sistema adutor do Castanhão. No Piauí? Irrigação dos Tabuleiros Litorâneos de Parnaíba.

No Rio Grande do Norte, apenas tratamento de esgotos no centro de Natal. Em Pernambuco, o píer petroleiro de Suape e o estádio para a copa do mundo. No Espirito Santo, esgotamento sanitário.

Chegamos ao Rio de Janeiro, hoje falido, um ex-Governador preso, um multibilionário empresário quebrando e preso e políticos a granel querendo ceder lugar na fila e as cobranças numa lista – reforma do Maracanã, metrô de Ipanema, linha 4 do metrô, PAC das favelas, residências, teleféricos do Alemão e do morro da Providencia; esgotamento sanitário de Mauá; reabilitação da praia de Sepetiba; túnel da Grota Funda; terminal de Cabiúnas para a Transpetro; hidroelétrica do Simplício.

Essa lista não diz tudo. Fossem só essas obras não teria sentido a derrama bilionária em dólares e em reais com pagamentos de propinas a políticos no Brasil e no exterior.

Nos últimos 9 anos, que correspondem a dois mandatos presidenciais e um ano apenas de um terceiro mandato, a Odebrecht pagou, segundo confissão voluntária de um dos seus ex-executivos, 10 bilhões 500 milhões de reais em propinas a candidatos e a partidos políticos no Brasil.

Numa outra sacada, 40 milhões dos quais 10 para o PMDB e 30 milhões divididos entre o PC do B, PRB e PROS. Marcelo, o ex-Presidente da empresa, contou outros 150 milhões foram para a campanha de Dilma.

E tem mais. Muito mais. É não desligar da lava-jato. Vai demorar até sabermos tudo, em especial sobre essa promiscuidade entre políticos desonestos, também lá de fora, e a menina-veneno, a empreiteira. A turma da carceragem de Curitiba não estaria conseguindo dormir direito – “menina veneno / o mundo é pequeno / demais prá nós dois / em toda cama que eu durmo / só dá você / só dá você...” (Hit do Ritchie nos anos 80).

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

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