Um estranho desce o rio

14.1.16
Por Edson Vidigal, advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

Em muitas cidades ribeirinhas, num tempo ainda sem rádio e sem luz elétrica, as pessoas de um lugar só podiam ver as pessoas de outro lugar viajando de balsas pelo rio.

A fé religiosa e a alegria do carnaval não tinham porque viajarem juntas, forçadas a paradas longas, entre uma margem e a outra quando não só as arroubas da produção, também porcos e galinhas, às vezes até jumento, eram embarcados para destinos que consumiam semanas.

Naquelas povoações não faltavam a capela que, havendo padre, se abria para as grandes celebrações por toda semana santa com direito a fumaça de alecrim queimando no altar, nem o galpão enfeitado para os bailes do carnaval. Havendo orquestra, é claro.

Sei bem o quanto essa dependência do raro, quase incerteza, agravada pela distância, pode ser causa de ansiedades muitas vezes estressantes.

Em Rock Falls, no Estado norte-americano de Illinois, na sequencia dos meus estudos sobre voto distrital e financiamento de campanha, fui acolhido por uma simpática família judia.

No sábado, notei a inquietação. O rabino contratado prestava serviços também a outras comunidades do circuito e não era certo àquela altura a que horas, ou se iria à noite, à sinagoga.

A solidão das nossas populações ribeirinhas, naquele tempo sem rádio e sem noticias das terras civilizadas, parecia compensar-se em seus acúmulos de esperas.

Embora a cada ano em datas diferentes, tirando as fases da lua e as enchentes do rio, o carnaval e a semana santa aconteciam.

Primeiro, o carnaval infestando de pecados as almas mais inocentes. Depois, a semana santa para o arrependimento, a meditação, o aprendizado do amor e da compaixão.

O estranho que descia o rio na balsa era um sacristão levando um recado do padre. Os músicos que iam tocar no carnaval perderam a viagem. Portanto, não haveria carnaval. Mas a semana santa seria mantida.

Agora o Financial Time, respeitada publicação de economia, editada em Londres, ao analisar mais uma vez essa ziquizira, que se abateu cruelmente sobre os brasileiros, informa que no Brasil nem carnaval vai haver mais. Tamanha a quebradeira.

Dizem que o Financial Time não gosta da Dilma. Sabemos por aqui que muito mais da metade da população não gosta da presidência dela. Vozes da sensatez quase se ajoelhando imploram – renuncia Dilma.

Dilma não entende que o principal desta crise tem a ver com a incapacidade dela de liderar o País.

Turrona, não percebe que as revelações das roubalheiras, apontando a promiscuidade entre as propinas aos agentes do PT e as doações de grandes empreiteiras contratadas pelo Governo para sua campanha, enlameiam seu Diploma de Presidente da República, cassando a sua legitimidade.

Até onde sabemos, só não haverá carnaval nas pequenas cidades cujas Prefeituras não têm mais como bancar a cerveja dos músicos. Nem o grogue generalizado.

Todo cuidado é pouco. Olha que o japonês da Federal vai estar de plantão no carnaval.

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