Artigo do Edson Vidigal: Jumentos

4.8.16
O Padre Antônio Vieira, não o dos Sermões, em nome de quem sacrilégios infindos tem se perpetrado em discursos e escritos, mas um modesto vigário que viveu  ou ainda vive no interior do Ceará chamou para si a causa dos jumentos sem donos.

Jumento que fosse encontrado só, pastando ou mesmo parado, sem fazer nada, com aquele ar de filósofo de entardecer em beira de estrada, como se esquecido de si, era apanhado e embarcado num caminhão para ser, adiante, exterminado.

Quando soube disso, o Padre Vieira começou a mobilizar seus paroquianos, chamando-lhes a atenção para se acabar com aquele absurdo. Jumento é o animal mais abençoado! 

Quando Herodes, o rei perverso, inspirador de governantes que não estão nem aí para as estatísticas de mortalidade infantil, mandou matar todos os recém nascidos para ter a certeza que, dentre eles, não sobreviveria o Messias, o casal José e Maria só fugiu a tempo, salvando o menino, porque tinha, ou alguém lhe emprestou, um jumento.

A primeira mijada do Menino Jesus teria sido mesmo no lombo daquele jumento. Daí, dizem também, aquela pinta escorrendo de um lado ao outro pouco antes do pescoço,  seria prova de que o jumento foi o único animal pessoalmente abençoado pelo Filho do Homem. 

A sua entrada triunfal em Jerusalém, 33 anos depois, no domingo de ramos, sendo aclamado Rei dos Judeus, não foi num cavalo de puro - sangue árabe, preferidos dos Césares, mas num jumento simples, um jegue pé duro.

Assim como a pomba branca simboliza a paz, a serpente o mal, o cordeiro o sacrifício, o jumento em si é o emblema da perseverança, da capacidade de sobrevivência em qualquer lugar do mundo, nas condições mais difíceis. É um bicho solidário, é ele que tem mais a ver com cada um de nós. 

Portanto, não apenas para o Povo do interior o jumento é um amigo solidário e um companheiro de trabalho, para qualquer trabalho a qualquer hora. O jumento é um motor de força, um meio de transporte, um cúmplice, é o trator dos pobres. 

Dispensa cuidados de veterinário, come até sola de sapato velho, pano de chão, folha de urtiga, dorme em pé, também serve como relógio porque só relincha, e muito sonoramente, nas mesmas horas do dia. E se tem uma jumentinha por perto, reproduz adoidado.

Os cearenses da paróquia do Padre Vieira fizeram um assanhaço tão danado contra os nazistas dos jumentos que até o Rei do Baião, o grande Luiz Gonzaga, se engajou no movimento em defesa da vida dos jumentos. O Padre até publicou um livro, “O Jumento Nosso Irmão”.

Em todo lugar do mundo, o Povo é força imbatível se motivado às grandes causas. A mobilização do Padre Vieira contra a matança dos jumentos resgatou os deveres gerais para com a defesa dos direitos dos animais. 

Caminhando domingo pela Avenida Paulista vi uma fila enorme adentrando um casarão antigo. À entrada, uma placa sugeria, adote um cão. Muitas pessoas saiam dali levando para casa um cachorro, desses que, antes, viviam soltos sem donos pelas ruas. 

O padre de Peritoró, contra quem assacam as infâmias de já ter mandado matar mais de duzentos jumentos, bem que poderia se mirar no exemplo do Padre Vieira cearense e, como os voluntários da Avenida Paulista, instalar na Prefeitura uma Central de Adoção de Jumentos. 

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