Escassez de respiradores desafia atendimento aos casos graves da pandemia; no MA são 1.064

23.3.20

A rapidez com que o novo coronavírus se multiplica no país acende o alerta para a incapacidade do sistema de saúde brasileiro atender, no curto prazo, a todos os casos graves decorrentes da epidemia.

A corrida dos governos estaduais e do Ministério da Saúde para aumentar a disponibilidade de leitos de UTIs tem obstáculos adicionais, já enfrentados por países com aumento exponencial de infecções: conseguir, em tempo recorde, os insumos e equipamentos necessários para o atendimento, principalmente ventiladores mecânicos.

O temor é faltar velocidade na aquisição de novos respiradores — considerados essenciais no tratamento de uma doença que ataca os pulmões e provoca insuficiência respiratória — e na compra de equipamentos de proteção individual, como máscaras.

No país, há 65 mil ventiladores, segundo dados do Ministério da Saúde, o que equivale a três equipamentos para cada dez mil habitantes. Desse total, 46,6 mil estão no SUS.

A distribuição não é homogênea: o Distrito Federal e estados das regiões Sudeste e Sul — que concentram o maior número de casos — contam com uma proporção de respiradores acima da média nacional.

Além disso, parte deles já é usada para atender a outros casos. Segundo dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a taxa de ocupação dos ventiladores disponíveis nos hospitais particulares é de 20%. No SUS, é de 50% a 60%.

Tempo em ventilação

Sem os ventiladores, e a considerar a evolução de infecções no Brasil similar à de países como Itália e Espanha, equipes de emergência poderão se ver obrigadas a escolher, em um futuro não tão distante, quais pacientes ocuparão os leitos disponíveis com ventilador mecânico — enquanto outros acabarão deixados com cuidados paliativos ou à própria sorte.

— É a maior preocupação. O mundo inteiro está comprando respirador neste momento — diz o infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência de Coronavírus em São Paulo.

Da primeira leva de 1.400 novos leitos de emergência que o governo de São Paulo estimou como necessários para receber casos graves, o estado conseguiu verba para pouco mais de mil. A lei brasileira diz que, para entrar em funcionamento, cada leito de UTI deve ter ao menos um ventilador mecânico.

— Desses novos leitos, 500 já estão prontos para, havendo necessidade, serem abertos em uma semana — diz o secretário de estado da Saúde, José Henrique Germann.

O estado de São Paulo concentra a maior parte dos casos de coronavírus. O prefeito da capital, Bruno Covas, anunciou que a prefeitura vai criar mais duas mil vagas de UTI. Será necessário correr para providenciar leitos, ventiladores e pessoal para operá-los no prazo anunciado por ele, de duas semanas.

— O problema é que esses pacientes permanecem longo tempo em ventilação. Um paciente fica em média seis dias na UTI; o com Covid-19 fica duas semanas, chegando a até 20 dias em alguns casos. Vai chegar uma hora em que esse recurso pode se exaurir — explica Suzana Lobo, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

Apenas quatro empresas fabricam esses equipamentos no Brasil: Vyaire, Takaoka, Leistung e Magnamed. Além delas, multinacionais como GE, Philips e Medtronic distribuem aparelhos importados — pouco acessíveis por causa da demanda global.

— Os ventiladores são, sem dúvida, o maior gargalo — diz Fernando Silveira Filho, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (Abimed).

Antes da crise, a demanda brasileira por ventiladores era de duas mil unidades por ano, número irrisório frente à explosão na demanda por causa do coronavírus.

Nesta semana, autoridades médicas da Itália pediram quatro mil unidades a fabricantes internacionais, mas só conseguiram 400. Cada aparelho custava antes da crise entre R$ 40 mil e R$ 200 mil, nas contas do consultor em gestão da saúde Carlos Suslik, que tem experiência na administração de unidades importantes, como o Hospital das Clínicas, em São Paulo.

— Esses aparelhos não tinham uso tão intenso numa UTI como têm, por exemplo, os aparelhos de reanimação cardíaca. Por isso, o comércio tinha pouca escala antes da epidemia — diz Suslik.

Na última sexta, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reconheceu o problema e afirmou que o governo estava em contato “com três iniciativas privadas associadas para aumentar a linha de produção, porque ele (o respirador) tem que ser um equipamento preciso”. (O Globo)

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