Chove Chuva

26.3.15
Por Edson Vidigal, advogado, foi presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

Pode ser que agosto a estas alturas com incertezas demais a lhe ocupar a agenda tenha se acertado com março combinando para ao ensejo dessas aguas que caem e que correm antecipar como num trailer pitadas do inesperado típico do após julho de todo ano.

Há quem um tanto esotérico não querendo vulgarizar os sinais das nuvens, mas se esquivando a traduzi-las, queira definir esses tempos de agora como mero inferno astral.

O certo é que nem agosto aguenta mais esperar tantos são os xaxados e tangos que a Dilma e seus sequazes ainda vão ter que dançar.

Daí que não suportando essa má fama de mês das bruxas e dos maus agouros, agosto não terceiriza sua agenda, mas pelo que estamos vendo até se deleita em compartilhar com março e quem sabe também com abril as desagradáveis surpresas que a historia, volta e meia, ao que parece adora lhe imprecar.

Também não é para menos.

Ninguém pode esconder que a gestão dos dinheiros públicos está a cada dia mais contaminada por mágicos que, entretendo direitinho os guardiões do erário, metem a mão na cumbuca levando o melhor do que encontram. Depois é como numa paráfrase daquele verso da canção – se sumiu ninguém sabe, ninguém viu...

Pior que isso não acontece apenas no circuito federal, não. Olha aí a crise dos Estados e Municípios, todos querendo renegociação de suas dividas com a União e a zangada esbravejando nas salas das famílias pela TV ah isso não dá, isso não dá...

Se mal pergunto, as bancarrotas dos Estados e Municípios não foram debeladas lá no mais atrás, quando da implantação do Plano Real? Não estava tudo tão equilibrado?

De repente, tudo pode acontecer, é verdade. Mas quebrar, de repente, um País, Estados e Municípios, enfim, uma União Federal, é tarefa gigantesca para muitos gigantes.

O que se ouve, porém, é que se não forem renegociadas as dividas que os Estados e Municípios têm para com a União Federal as aguas vão rolar. Quer dizer, avenidas se transformando em rios barrentos, as ruas em lagoas de lama, casas inundadas, falta de comida, crianças sem escolas, mosquitos inflando as estatísticas de dengue e outras endemias, etecetera, tudo isso num crescendo por conta das aguas que rolam e ainda vão rolar.

Num tempo em que as pessoas escreviam cartas, não só cartas de amor porque, no dizer do poeta, todas as cartas de amor são ridículas e não seriam ridículas se não fossem cartas de amor, num tempo de muitas cartas, mestre Alceu Amoroso Lima falando a Jackson de Figueiredo sobre a politica comparou-a com a arquitetura.

“A política é no mundo moral o que a arquitetura é no mundo das artes. (...)

“Todo Governo tem, portanto, a necessidade primária de criar no ambiente social sentimentos de aproximação, de ideais comuns, uma base de comunhão sobre a qual poderão pairar, inocuamente, as variedades de partidos, etc.”

Acontece que na democracia a autoridade só se afirma na proporção da sua legitimidade que resulta da confiança da população e das forças politicas e econômicas aliadas. Essa legitimidade não se traduz em autoridade se esta for incapaz de liderar.

Gerenciar é pouco. Liderar é imprescindível. A crise destes tempos é mesmo politica porque é de confiança, de falta de legitimidade. Ninguém até aqui lidera coisa alguma. Há gritos em uníssonos de outros e gritarias da outra – tudo parado no ar.

Chove chuva, chove sem parar...

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