QUEBRANDO BARREIRAS

10.9.15
Por Jorge Bastiani

Já está difícil olhar essas ruas incertas, descobertas, fundas, onde parecemos mais atletas de salto do que transeuntes, de tentar cruzar uma esquina sem cair em um buraco, de querer tapar de negro o chão que não mais vemos.

Não será uma sombra fugaz, insistente em tapar nossas visões que vai fazer a dor que sentimos passear em carros sobre o asfalto liso do centro.

Não fazemos parte dessas ruas. Somos da periferia! Com muito orgulho: somos dos bairros esquecidos, que sangram a cada passagem de um veículo, que se afunda ainda mais a cada chuva.

Suamos com a força do sol nesse El Nino que queima a pele, mas sofremos ainda mais com a falta do verde.

Abriram ruas que se esqueceram de deixa-las trafegáveis; a cada passo um tropeço sobre pedras soltas e esquecidas de retirar; um mar de matos cobrem as visões sobre outro lado e nem mesmo aceno nos dão!

E a cidade se arrasta sobre si, se contorce... Tenta apegar-se à sua história... Está jogada ao chão! Nem mesmo janelas são salvas! Elas podem servir de trampolim aos amantes nas noites escuras a procura de abrigos.

E mais uma edificação cai sobre si mesma, enquanto um cardume de traíras se prepara para um jantar, sem licitação, onde quem dá mais leva.

Nenhum espelho pode ficar exposto para não correr o risco de ver seus reflexos, o que os tornariam frágeis diante de tamanha demolição.

É preciso ser forte para decidir o que fica de pé, não se pode olhar para trás: as máquinas estão postas a peso de ouro, pagas com cada pedra que cai. Não existe saudade neste comércio que afoga esperanças e vende ilusões.

Um vale tudo está lançado para bem próximo, onde sobreviver é preciso; mas preferimos acreditar nas surpresas do novo.

Por todos os cantos ouvem-se vozes que gritam bem fortes exigindo atenção.

A cidade é mulher, ela quer carinho, ela não quer ser mais maltratada, ela quer apenas que sejamos gentis.

1 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    "Se não puder derrotar a tirania, relate sobre ela." - Shirin Ebadi

    Abraços!

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