Entre espumas

27.4.15
Roberto Veloso Juiz federal e professor doutor da UFMA

Muita gente me pergunta por que aprendi a letra de tantas músicas de cantores populares. A resposta está em minha infância e adolescência na casa de meus pais, quando depois de fazer as tarefas escolares, divertia-me ouvindo as histórias de

Cícera, secretária doméstica de minha mãe. Cícera era também lavadeira de roupas no Rio Poty, à época em que as águas daquele manancial não estavam poluídas. De fato, construção não havia acima da cachoeira de pedras próxima ao CEFAP. Cícera era forte sem ser gorda, o ofício não lhe permitia. Comia farinha com banana quando ia lavar roupas no rio, era esse o costume de todas. Passava o dia sob o sol escaldante, sem usar filtro solar Um tempo de ausência de preocupação com o câncer de pele.

Ela não gostava de ferro elétrico, só passava roupa com o ferro a brasa. As camisas de meu pai trabalhar eram engomadas, literalmente. Realizava seu trabalho ouvindo a rádio Pioneira de Teresina, no programa “Seu gosto na berlinda”, apresentado pelo jornalista Roque Moreira.

O programa além de tocar músicas populares, hoje cognominadas de bregas, fazia uma espécie de mensageiro, principalmente para as regiões maranhenses próximas à capital piauiense. Era comum se ouvir recados do tipo: “João de Dica avisa à sua esposa Maria do Rosário que fez a cirurgia e está tudo bem. Na sexta-feira receberá alta e voltará para casa. Prepare os animais”. A ordem para preparar os animais se devia à falta de estradas vicinais, obrigando os moradores a trafegar em lombos de animais ou a pé da estrada principal até suas residências.

Eu mesmo fui umas duas vezes postar tais recados a pedido de minha mãe para os seus familiares maranhenses. Eram sempre ouvidos e a resposta sempre chegava a contento. O programa assim possuía uma audiência enorme, realizava um serviço de utilidade pública inestimável.

As músicas tocadas eram as melhores possíveis. Vejam o exemplo do Fernando Mendes com inúmeras canções de altíssimo nível, mas somente ganhou a parte intelectualizada da sociedade quando teve uma de suas músicas cantadas por Caetano Veloso: “Você não me ensinou a te esquecer”.

Ainda hoje prefiro as de Waldick Soriano, para mim incomparavelmente o melhor. Ele foi autor de centenas de músicas, notabilizando-se por “Quem és tu” e “Tortura de amor”, esta última censurada no governo dos militares. Não porque fosse uma canção revolucionária, mas porque continha a palavra tortura. Vejam a que ponto chegava a censura.

Além de Waldick, outros cantores eram tocados. Bartô Galeno, que gostava de imitar Roberto Carlos. Para este, compôs “Lembranças do rei”, cuja letra é formada pelos títulos das músicas do ídolo. Genival Lacerda com o seu estilo de duplo sentido. Odair José querendo tirar a moça daquele lugar e Reginaldo Rossi, entre tantos outros.

Mas às vezes acontecia o inesperado. Em certa oportunidade, um motorista, nosso vizinho, teve o seu casamento abalado por uma música tocada a pedido da namorada. A partir dali a esposa ficou sabendo das escapadas do marido. A melodia era carro hotel de Bartô Galeno.

A história foi comentada nas rodas da vizinhança e meu tio disse “esse vai ter de ouvir entre espumas, de Roberto Müller, para apagar as mágoas”. Fiquei curioso e fui procurar ouvir a música. A letra fala de um amor iniciado em uma mesa de bar, com os amantes tomando uma cerveja. Por infelicidade, o amor durou apenas duas semanas. A sensibilidade de Roberto Müller transformou o evento em canção.

O Washington, genro de dona Dorcas, caxiense de nascimento e coração, enviou-me há uns dias atrás a apresentação do Roberto Müller em Recife, cantando entre espumas. O cantor entra no salão igual a um imperador romano voltando de uma batalha vitoriosa, sob as notas triunfais da orquestra.

1 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Saba tu não e fraco não no teu blog escreve um ministro da Lei e agora um Juiz Federal de maior gabarito de nosso Estado.

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