Nuvens no sossego

7.5.15
Por Edson Vidigal, advogado, foi presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

Não que o pai tivesse largado a mãe como quem, na canção popular, bate o portão sem fazer alarde com a leve impressão de que já vai tarde.

Nem chegou a conhecer o pai porque três meses antes de nascer ele havia morrido num acidente de carro.

Sem ter com quem deixar o menino, a jovem viúva, enfermeira por profissão, passou a leva-lo para os plantões a que era obrigada nos hospitais.

Filho único, cercado de amor materno por todos os lados, o menino foi crescendo suave, embalado pelas notas musicais ao derredor.

Na banda da escola revelou-se exímio saxofonista ancorado na ilusão de um dia formar sua banda de rock e ganhar o mundo tocando.

Os melhores alunos formavam um grupo que, uma vez por ano, era levado à capital podendo conhecer inclusive a casa do Presidente.

Passeavam pelo jardim da casa quando o Presidente passando casualmente viu aquele rapaz de pele vermelha, o rosto sardento, um tanto diferente dos demais, e lhe estendeu a mão num cumprimento.

De volta pra casa, falou para a mãe que mudara de ideia. Não queria mais ser roqueiro. Queria ser Presidente da República.

A seu favor, tinha o tempo. Trabalhou como office-boy e até como barmen sobrevivendo sabia a mãe como. Chegou ao topo nos estudos. Foi Advogado, Professor de Direito, Procurador do Estado, Governador, Presidente da República.

Nome da enfermeira – Virginia Cassidy Clinton. Mãe de William Jeferson Clinton, Presidente dos Estados Unidos por duas vezes.

Essa história tem a ver com o Dia das Mães? Também.

Entre nós, no Brasil, geralmente, quando se pergunta a um menino o que quererá ser quando crescer, os modelos não variam tanto – jogador de futebol, policial, empresário rico.

Já as meninas sonham em ser artista da novela ou modelo de desfiles de modas. São poucas as que sonham em serem médicas, dentistas ou enfermeiras.

Passada essa transição, liberados das ilusões da adolescência, não sei de ninguém que tenha dito à mãe ou a pai que vai estudar para ser Ministro do Supremo Tribunal Federal.

Essa é uma ambição que, se latente, só revelará forte, sem freios, se por seus méritos o rapaz ou a moça se vir um dia, por exemplo, na condição de Ministro ou Ministra do Superior Tribunal de Justiça.

É do STJ o principal forno de onde costumam sair quentinhas as grandes vocações para a magistratura suprema. É chegar lá e logo se lhe acerca uma tentação divina para ficar peruando toda vaga a caminho.

E isso é horrível até pelo que vai aflorando em quebra da coesão interna indispensável à formação de juízos sossegados na reflexão para a mais prudente realização da Justiça não obstante o turbilhão de leis mal feitas.

Exaustos com a senhora outroramente cognominada a “mãe do PAC”, rejubilemo-nos agora a com a “mãe da PEC”. Sim, essa PEC da bengala.

Quanto sossego a partir de agora a sobrestar obsessões, conquanto nobres e lúdicas,  que em nada acrescentam à escalada republicana e democrática do País.

É sempre bom lembrar o poeta – “o mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha em poder conquista-lo. Ainda que tenha razão”. (Fernando Pessoa).

Feliz Dia das Mães!

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