O Homem da Rua

23.4.15
Por Edson Vidigal, advogado, foi presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

Como dizia a doutora Maria Inês, uma das pioneiras do colunismo social na televisão – e agora vamos às notiças.

Era assim com cê cedilha por conta de um probleminha na dicção, mas que até soava normal. Na TV, o Governador da época só conseguia dizer – sinhoires tretespectadoires...

Os visitantes estrangeiros que aportavam em São Luís do Maranhão eram classificados pela doutora na categoria especial - turistas de fora.

Então, vamos às notiças, segundo os jornais matinais da televisão.

Oito mortos numa chacina em São Paulo. Homens foram mortos à queima roupa na sede da torcida do Corintians.

Em Porto Alegre três homens armados invadem um ônibus e o incendeiam.

Acidente em estrada no Paraná deixa oito mortos.

Casal e filho de oito meses morrem em acidente em estrada nas proximidades de Redenção do Norte, em São Paulo.

Dengue mata mais pessoas agora também no interior de Minas. Prefeitura de São Paulo vai chamar o Exército para o combate ao mosquito.

Médicos da rede municipal de saúde em Goiânia, Goiás, começam a greve geral.

Pesquisa encomendada pela Federação do Comercio de São Paulo mostra que os brasileiros estão lendo menos. Um em cada cinco não havia lido um livro no ano passado.

Cresce o pessimismo no mercado em relação à inflação nos próximos meses no País.

Dois adolescentes morrem afogados numa praia em Fortaleza.

Pesquisa indica que setenta e quatro por cento dos brasileiros não assistiram a qualquer filme no ano passado.

Não para de chegar carros apreendidos pela Policia Federal e não há mais onde guarda-los. Já são mais de cem carros de luxo.

(Preciso sair dessa editoria de catástrofes. Salto os canais. A mesma coisa. Desligo o som. Fico só com as imagens. Assistir televisão como cinema mudo é muito engraçado.

Se é um politico defendendo o atual Governo ou algum economista tentando explicar o atual Governo, mantenha o som em off e preste atenção na linguagem corporal.

Sim, o corpo fala e em ocasiões como essas o idioma bate de longe, em compreensão, o dilmês. Veja a emissão cursiva, o movimento labial, os argumentos enumerados pelo toque das pontas dos dedos.

O que é mais intragável num amanhecer? O desfile de notícias ruins em vozes femininas quase gritadas ou os comerciais dos feirões de eletrodomésticos mostrando que os publicitários desse comércio nos tomam como uns brocos ou idiotas?

Classificada por Stanislaw Ponte Preta como maquina de fazer doidos, a televisão brasileira parece não haver encontrado ainda quem pudesse juntar talentos no nível de um Rubem Braga, de um Oto Lara Rezende, de um Paulo Mendes Campos, de um Nelson Rodrigues ou de uma Clarice Lispector para investir em editorias mais suaves que, contrastando com as imitações da vida mostradas nas novelas, apresentem em cada amanhecer noticias mais agradáveis, ainda que no formato das histórias infantis.

No tempo do seu começo, Chico Buarque fez um poema sobre um homem que só por teimosia ficava ate tarde na rua fazendo de tudo para não chegar em casa. Se bem me lembro, para não ter que encarar a televisão.

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