Monsenhor Mendes (1941-2015): lembranças do que eu vi, ouvi e senti sobre sua vida e seu sacerdócio em Caxias-MA.

9.2.15
Por Francinaldo Morais (*)

Nasci em Caxias, nos idos da década de 1960. Fui batizado na Igreja de São Benedito e nunca  me ausentei da minha cidade por mais de 30 dias ininterruptos. Por estas razões, com certeza,  tenho lembranças do piauiense monsenhor José Mendes Filho, falecido em Teresina-PI., no dia 07.02.15. Sei que pessoas próximas a ele guardam outras,  diferentes lembranças. Ocorre assim porque também em matéria de Religião é natural que  tenhamos preferências pessoais. Ser cristão e/ou ser humanista orienta a sentir a morte de qualquer  pessoa  como uma perda irreparável. Em regra, não desejamos morrer, ainda que os cristãos acreditemos que a morte permita o retorno ao Criador.

Como líder religioso, monsenhor Mendes nunca foi dos meus preferidos,  mas isto não me impede de reconhecer sua  liderança na comunidade católica de Caxias. Dos 5 aos 11 anos de idade desenvolvi afetos pelo monsenhor Gilberto Barbosa, por orientação das minhas mães Florize Morais e Rosa Soares, e, quando trabalhei na CSMC, dos 16 aos 18 anos, conheci e aprendi a gostar do monsenhor Clóvis Vidigal (várias vezes o recebi no PS e o encaminhei até um ou outro dos apartamentos da CSMC, por orientação dos donos do hospital).

Aos 19 anos, após ter ouvido o engenheiro caxiense Jadihel José de Almeida Carvalho (1929-1997) falar do Comunismo, em uma palestra no SESC de Caxias-MA, iniciei minhas próprias pesquisas sobre o Marxismo. Embora com formação cristã (fiz catecismo na Igreja da Matriz, sob as bênçãos do monsenhor Mendes) as percepções que tinha da Igreja e do Clero católicos foram se alterando a  medida que eu me aprofundava na dialética hegeliana-marxista.

No CESC-UEMA (1993-1998), cursando História, a tendência de me afastar do cristianismo católico só seria contida quando tomei conhecimento da Teologia da Libertação, especialmente o que pude sentir nos livros “Igreja: carisma e poder”, “Teologia do Cativeiro e da libertação” e, ainda, “E a Igreja se fez povo”, esforços teóricos do frei Leonardo Boff. Em meio a estas leituras, um dia decidi ir até o Palácio Episcopal de Caxias, oportunidade em que fui recebido pelo padre Sebastião Francisco Pereira que, durante algum tempo, conversou comigo sobre a recepção e as relações entre a Igreja Católica na América Latina e a Teologia da Libertação. Sai daquela conversa com a certeza de que tudo aquilo estava muito distante do que eu via e ouvia sobre o entendimento e a prática sacerdotais de membros da Igreja Católica como o monsenhor Mendes.

Por incrível que pareça foi exatamente o engenheiro comunista Jadihel Carvalho que, noutro momento, ampliou minhas percepções sobre o monsenhor Mendes. Eu e o engenheiro debatíamos uma proposta dos marxistas radicais, inspirada nos iluministas franceses (Voltaire, Diderot ?),  que consiste em afirmar que o capitalismo só será vencido quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último padre. Durante o debate, provoquei o engenheiro caxiense, suscitando-lhe comparações entre o saudoso padre Maurício Vanini, por quem desenvolvi simpatia, após contatos com a Teologia da Libertação, e o monsenhor Mendes.

Os comentários de Jadihel foram para mim surpreendentes: “___ Sabe Francinaldo, há uma diferença fundamental entre o monsenhor Mendes e muitos padres que eu conheço. O monsenhor Mendes acredita realmente na existência de Deus e num destino universal da Igreja Católica de preparar o povo para o retorno de Jesus Cristo. Ao contrário do Monsenhor, muitos desses padres não têm a mesma fé. Entram e estão na Igreja Católica por motivações como segurança socioeconômica, facilidades para estudar e conhecer o mundo inteiro e reconhecimento público que permita obter benesses do Poder”.

Os comentários de Jadihel Carvalho não me convenceram a adotar  o líder religioso católico monsenhor Mendes como um dos meus líderes religiosos preferidos (continuo admirando o cearense d. Helder Câmara e o paraense padre Josimo Morais porque entenderam que o amor de Cristo pelos pobres implicou ser odiado e perseguido pelos ricos) mas passei a considerar as observações do sábio comunista caxiense todas as vezes que considero a vida e o sacerdócio de um membro da Igreja Católica. No caso específico da vida e do sacerdócio de mais de 40 anos, do monsenhor Mendes, em Caxias, registro meus votos de que a sua fé e os seus atos possam garantir a salvação da sua alma e que, antes disto, “a terra lhe seja leve” (M.A.).

(*) Professor de História, membro do IHGC e acadêmico de Direito.

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